domingo, 3 de março de 2019

Mundo: …E a ajuda não entrou

A oposição perdeu a aposta de furar o bloqueio de Maduro com alimentos, mas ele está cada vez mais frágil. Resta saber qual será o papel do Brasil


O governo do ditador venezuelano Nicolás Maduro está mais fraco hoje do que esteve ontem. Mesmo assim, ele permanece encastelado no Palácio Miraflores, para frustração dos opositores, que viram fracassar, no sábado 23, o plano de solapar sua base de sustentação por meio de uma mobilização popular. Como estava planejado, caminhões carregados de alimentos e remédios se postaram em Pacaraima, no Brasil, e em Cúcuta, na Colômbia, prontos para cruzar as fronteiras empurrados pelo povo venezuelano, tendo à frente o presidente interino Juan Guaidó em pessoa. Esperava-se que as tropas lá postadas, sem força nem disposição para conter a marcha dos despossuídos, fizessem vista grossa ou mesmo aderissem ao movimento. Não funcionou. Os comboios foram bloqueados por barreiras de soldados que, à menor provocação, dispararam balas de borracha (em alguns pontos, balas de verdade), lançaram bombas de gás lacrimogêneo e, irremovíveis, impediram que a ajuda humanitária entrasse na Venezuela. Enquanto, em Caracas, Maduro interrompia um discurso a apoiadores fiéis para ensaiar uma animada dancinha, o saldo oficial da investida oposicionista era de quatro mortos e cerca de 300 feridos.

Também ferida, no contexto da crise venezuelana, saiu a diplomacia brasileira, recolhida ao segundo plano na engrenagem montada pelos Estados Unidos para moer Maduro. O governo americano foi o primeiro a reconhecer Guaidó quando, em 23 de janeiro, sustentado por seu posto de líder da Assembleia Nacional, ele declarou Maduro “usurpador” e assumiu a Presidência. Partiu de Washington o golpe mais doído no bolso da ditadura: a suspensão das importações de petróleo venezuelano, uma receita de uns 11 bilhões de dólares anuais, e o bloqueio das contas venezuelanas em bancos do país. Aviões americanos transportaram boa parte das toneladas de ajuda humanitária com que se pretendia estremecer os alicerces do que resta de apoio a Maduro. O Brasil veio a reboque — atitude que, além de arriscada, denota uma visão de futuro pouco amadurecida. “Desde o século XIX a diplomacia brasileira se destaca pela autonomia e capacidade de atuar como negociadora em situações difíceis. O presidente Bolsonaro, no entanto, tem nos Estados Unidos de hoje uma referência a ser seguida e não vê problema em acoplar o país a suas políticas”, diz Felipe Loureiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.

No sábado dos conflitos, os venezuelanos sentiram fraquejar a centelha de esperança acesa por Guaidó para a população privada de tudo, especialmente de democracia — quando os guardas na fronteira colombiana atearam fogo a uma carreta, manifestantes correram para remover e levar a carga. “O discurso era otimista demais”, avalia o cientista político Luis Enrique Lander, do Observatório Eleitoral Venezuelano. “Guaidó disse que a ajuda passaria, e não passou.” Premida pela fome e pela escassez generalizada, a Venezuela pena os efeitos da desastrosa gestão chavista. Entre 6.000 e 7.000 empresas foram embora ou fecharam as portas, calcula Efraín Velázquez, presidente do Conselho de Economia Nacional, antigo órgão consultivo do governo, substituído por um mais dócil, o Conselho Nacional de Economia Produtiva. Só restou um jornal independente, El Nacional, que por falta de papel se tornou digital. Os outros foram comprados por empresários ligados ao regime ou fecharam. O mesmo aconteceu com as emissoras de TV. Sites de notícias independentes, como El Estímulo, cujos servidores ficam nos Estados Unidos, sofrem constantes ataques de hackers, atribuídos ao governo. A maior despesa é com a proteção cibernética, afirma a proprietária, Paula Quinteros. “Cada dia piora a situação econômica”, analisa Velázquez. “Este governo acabou. Só falta definir como e quando.”
 

Na fronteira brasileira, além de impedir a entrada de comida e remédios, o fechamento decretado por Maduro elevou a tensão em Pacaraima, cidade no norte de Roraima onde uma faixa de terra de 600 metros separa o posto da Polícia Federal do pequeno obelisco que divide os dois países. VEJA percorreu um dos caminhos alternativos, chamados de trochas, que os venezuelanos têm de seguir agora para chegar ao Brasil e encontrou três soldados na mata, armados de fuzil. “Vocês têm pão aí?”, perguntou um deles ao caminhoneiro brasileiro Furtado José, de 60 anos, que comprara mantimentos aqui para alimentar os colegas presos do outro lado, sem poder passar. Dois pãezinhos para cada um, e o grupo seguiu em frente. Segundo cálculo da Receita Federal, 9.000 toneladas de alimentos por dia deixam de ir para Santa Elena de Uairén, no lado venezuelano. Os comerciantes de Pacaraima relatam queda de até 90% na venda de alimentos, produtos de higiene e remédios. Já quem comprou gasolina por 1,50 real o litro na Venezuela — preço para brasileiros — antes de a fronteira fechar hoje revende o combustível a 7 reais.

 

No fim da tarde de sábado, venezuelanos agrupados no lado brasileiro puseram-se a atirar pedras e coquetéis molotov contra integrantes da Guarda Nacional Bolivariana posicionados no posto de fronteira, os quais responderam com bombas de gás lacrimogêneo. No domingo o conflito se agravou, homens da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional e do Exército interferiram e os ânimos se acalmaram. O fechamento da fronteira reduziu o fluxo de entrada de venezuelanos em Roraima. De acordo com o Exército, eram 550 a 600 pessoas por dia; agora o número raramente passa de uma centena. Só em 2019, quase 30.000 imigrantes chegaram a Pacaraima.

O baque da oposição no fim de semana não foi o primeiro. Desde que o ex-presidente Hugo Chávez tomou posse, em fevereiro de 1999, inaugurando o “socialismo do século XXI”, seu grupo vem impondo derrota atrás de derrota aos que não o apoiam — um contingente que, segundo as pesquisas, chega a 80% da população. Quando o eleitorado oposicionista ultrapassou os 50%, nas eleições de dezembro de 2015 para a Assembleia Nacional, mudaram-se as regras eleitorais. Mas nunca o regime pareceu tão perto do fim quanto agora. A mobilização para a entrega da ajuda humanitária e a repressão por parte da polícia, da Guarda Nacional e dos “coletivos” — civis armados e treinados para reprimir atos contra o governo — constituíram mais uma batalha na campanha de desgaste que, Estados Unidos à frente, vem encostando o governo na parede.
 

Zaida Parra (à dir.), 52 anos, e sua filha Adresly, 16, nunca apoiaram o chavismo e não perdem nenhum protesto da oposição em Caracas, onde vivem. Mas se sentiam desesperançosas — até Juan Guiadó aparecer. “Ele nos deu ânimo para lutar por uma Venezuela livre”, diz Zaida, contadora formada que a Pepsi-Cola demitiu junto com 60% dos funcionários. Sem emprego desde então, ela vive das encomendas de costura, tricô e bordado que faz em casa. Em um mês bom, fatura 160.000 bolívares soberanos (menos de 50 dólares). Tanto ela quanto Adresly têm problemas de saúde, e o dinheiro dos remédios vem da filha mais velha, Adrineidy, 25, camelô em Bogotá. Se a situação não mudar, Adresly também pretende partir assim que terminar o ensino médio. Zaida garante: “Não vou embora. Os chavistas é que têm de sair”. (Lourival SantAnna/VEJA)

Um de seus objetivos, talvez o principal, é enfraquecer o ditador a tal ponto que as Forças Armadas, sua base de apoio, achem mais prudente abandoná-lo e unir-se ao outro lado. No fim de semana do conflito na fronteira, 165 militares desertaram. O número continuou crescendo ao longo da semana, aproximando-se de 400 — um buraco de agulha entre os 200.000 soldados do país. Cada vez que a estratégia de desobediência civil pregada pela oposição vacila, ergue-se a tenebrosa ameaça de intervenção militar. “Todas as opções estão na mesa”, insiste o presidente Donald Trump desde o primeiro momento.
 
Na segunda-feira 25, quando os catorze países do Grupo de Lima, criado para acompanhar os acontecimentos na Venezuela, se reuniram em Bogotá com Guaidó e o vice-presidente Mike Pence, dos Estados Unidos (que não fazem parte do grupo), a opção militar pairava no ar. Pence transmitiu ao presidente interino que seu governo estava “100% ao seu lado” e reiterou a fala de Trump. O próprio Guaidó, com muitas entrelinhas, flertou com a possibilidade. A ideia, no entanto, foi rechaçada pelo Grupo de Lima, cujo apoio seria imprescindível para uma ação tão extrema. Discursando na reunião, o vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, afirmou: “Vamos manter a linha da não intervenção, acreditando na pressão diplomática e econômica internacional para buscar uma solução pacífica. Sem aventuras” (veja a entrevista nas Páginas Amarelas). O chanceler Ernesto Araújo, expoente da ala de Brasília alinhada com os Estados Unidos, não discursou. “Na reunião anterior do Grupo de Lima, em janeiro, Araújo foi sozinho. Agora, Mourão assumiu a palavra. Os militares brasileiros são historicamente nacionalistas e avaliam que o alinhamento total com os Estados Unidos pode ser prejudicial para o Brasil”, diz Loureiro.

 

Desde que a fronteira entre Brasil e Venezuela foi fechada, na quinta 21, todos os dias dezenas de venezuelanos desafiam o calor, as muitas subidas e descidas e a presença de soldados bolivarianos à espreita na mata fechada para seguir a pé de Santa Elena de Uairén a Pacaraima, em Roraima, por trilhas, ou ‘trochas’, como são chamadas. Em uma delas, Alexander Salazar, de 37 anos, caminhava com um saco repleto de garrafas de refrigerante sobre os ombros. “Alguma coisa precisa me proteger do sol”, explicou ele, que trabalha como camelô. “Nunca tinha feito este caminho antes, mas não tenho opção. Se eu não comprar os refrigerantes no lado brasileiro, fico sem mercadoria e minha mulher e filhas não comem”, disse. E desabafou, ofegante: “Ninguém aguenta mais isso”. (Rodrigo Salles/VEJA)

Guaidó viajou a Brasília na quinta-feira 28, onde teve seu primeiro encontro com Jair Bolsonaro. Ele afirma que voltará a Caracas nos próximos dias, mesmo correndo o risco de ser preso — a Justiça venezuelana, chavista até a alma, abriu uma investigação sobre ele, bloqueou suas contas bancárias e o proibiu de sair do país —, embora essa seja uma hipótese remota. Os EUA prometeram ampliar as sanções econômicas e sugeriram às nações latino–americanas que façam o mesmo. Livrar a Venezuela do regime ditatorial e cruel de Maduro é urgente. Mas, ao perder o protagonismo que sempre teve num momento perigoso para um vizinho de porta, o Brasil sai menor de um jogo diplomático onde tinha tudo para dar as cartas. Além disso, em nada ajudaram os elogios de Bolsonaro, proferidos numa solenidade, ao mais longevo ditador sul-americano, Alfredo Stroessner, que mandou no Paraguai de 1954 a 1989. Bolsonaro o chamou de “homem de visão” e “estadista”. Stroessner promoveu torturas, prisões, exílios, eleições sistematicamente fraudadas e transformou seu país num paraíso do narcotráfico e do contrabando — e, segundo investigações recentes, criou até um harém de pedofilia. O elogio a um ditador dessa estirpe leva à desconfiança de que Bolsonaro divide o mundo entre ditaduras ruins e ditaduras boas. 

Fonte: VEJA com reportagem de Thais Navarro

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